CARTÉIS MEXICANOS EM MOÇAMBIQUE?
O Sintoma Invisível da Corrupção que Devora as Nossas Fronteiras Invisíveis
Como moçambicano, nascido e criado nas ruas — onde o cheiro do mar se mistura com o pó das estradas esburacadas — é impossível ler certas notícias sem sentir uma raiva surda. Não é surpresa; é confirmação.
Há mais de 30 anos, desde os Acordos Gerais de Paz de 1992, foi-nos prometido um Moçambique novo: democrático, próspero, institucionalmente sólido e livre da opressão. O que se construiu, porém, foi outra coisa: um Estado capturado, refém de uma governação que, sob a bandeira da FRELIMO, se degenerou em corrupção sistémica, dívidas ocultas e incompetência crónica.
A recente sentença de 12 meses de prisão no Botsuana aplicada a seis cidadãos mexicanos, ligados a um cartel de drogas com operações em Moçambique, é apenas a ponta visível de um icebergue profundo e antigo. A multa simbólica de P5.000 — convertível em cinco anos de prisão se não paga — soa quase a ironia judicial. Estes indivíduos entraram ilegalmente no Botsuana em fuga de acusações de tráfico de droga em Moçambique, onde se encontravam em liberdade sob fiança.
O sétimo homem na fotografia, o nigeriano Uchema Njoku, acusado de facilitar a travessia ilegal de fronteiras, representa o elo africano desta cadeia criminosa transnacional: o facilitador local, peça indispensável num jogo global.
Muito além do escândalo: o cartel como metáfora do Estado falhado
Para muitos, esta história resume-se a mais um episódio de narcotráfico internacional, quase cinematográfico. Para outros, trata-se apenas de falhas na segurança fronteiriça. Mas essa leitura é curta, cómoda e perigosa.
O que está em causa é algo mais profundo: os cartéis como sintoma de uma colonização invertida.
Durante três décadas, o Estado moçambicano falhou na construção de instituições fortes, preferindo alimentar elites políticas e económicas através de esquemas obscuros, empréstimos secretos e captura do erário público — com destaque para o escândalo das dívidas ocultas de 2016, que mergulhou o país numa crise económica e social ainda não resolvida.
Esse vazio institucional não permanece vazio. Ele é ocupado. Não por investidores honestos, mas por sindicatos criminosos internacionais. Antes, eram potências coloniais a explorar minérios. Hoje, são cartéis latino-americanos a utilizar Moçambique como hub logístico do narcotráfico global, explorando:
- costas longas e mal vigiadas;
- portos estratégicos;
- alfândegas permeáveis;
- e uma polícia corroída pela corrupção.
Por que Moçambique? Por que agora?
Os cartéis não chegam por acaso. Eles instalam-se onde o Estado é fraco, mas o território é estratégico.
Moçambique oferece exactamente isso:
Cartéis como Sinaloa ou Jalisco Nueva Generación expandiram-se para África há anos, diversificando os seus negócios — da cocaína à heroína e ao fentanil — e aproveitando fragilidades estruturais típicas de Estados pós-coloniais.
Neste contexto, a insurgência armada em Cabo Delgado, activa desde 2017 e responsável por milhares de mortos e deslocados, surge como o cenário perfeito. O caos alimenta o contrabando. O contrabando financia o conflito. E os cartéis entram no jogo, criando alianças improváveis, mas eficazes.
Os facilitadores locais: vítimas e cúmplices de um sistema falhado
O cidadão nigeriano envolvido no caso não é uma excepção. Ele simboliza uma realidade mais ampla:
africanos empobrecidos por décadas de má governação, transformados em facilitadores logísticos do crime internacional.
Quando o Estado abandona o interior do país, quando o desemprego juvenil se normaliza, quando a educação falha e as oportunidades não chegam, o recrutamento torna-se fácil. Não por maldade inata, mas por desespero estrutural.
A verdadeira acusação: não contra mexicanos, mas contra a governação moçambicana
Esta não é uma história sobre “mexicanos maus”. É uma história sobre como a governação moçambicana exporta a sua podridão institucional para os países vizinhos.
- fianças recorrentes,
- processos eternamente adiados,
- e uma justiça selectiva, indulgente com o crime organizado.
A ironia é cruel: enquanto no Botsuana cumprem pena por entrada ilegal, em Moçambique provavelmente já estariam em liberdade, aguardando mais um capítulo de impunidade.
Ou reformamos o Estado, ou perderemos o país
A solução não está em discursos vazios nem em operações mediáticas. Está numa revolução institucional profunda, que inclua:
- Transparência radical na governação;
- reforma real da justiça;
- Combate sério à corrupção nas forças de segurança;
- Investimento estrutural no norte do país;
- E controlo efectivo das fronteiras — reais, não apenas linhas num mapa.
Se nada mudar, o futuro é previsível: cartéis a ditar regras em solo moçambicano, enquanto o governo continua a fingir que governa. Como moçambicano cansado de promessas ocas, deixo um aviso claro: esta é a hora de acordar. Depois, pode ser tarde demais.

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